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28 de junho de 2010

A minha fé esta abalada, eu não sei se acredito mais, eu não sei se tenho em que acreditar, vejo minha avó deitada na cama, sem saber nem mesmo seu próprio nome, justo ela que nunca fez mal a nenhum outro ser vivo, agora não consegue comer com as próprias mãos !
   Não me parece justo, NÃO É JUSTO ! Ve-la desse modo não passa perto de ser fácil. Agora ver o que isso causa em quem está ao meu redor, a minha mãe, as minhas tias, me desola. Ontem encontrei minha tia chorando no banheiro, eu a abracei forte, e ela desabou em meus braços, eu senti seu corpo cair sobre o meu por ja estar sem forças de lutar, e nem se quer uma lágrima eu derramei, eu havia chorado três dias seguidos, eu ja não tinha mais sentimentos, eu a via fraca, mas também não tenho forças, não tenho  força nem para chorar.
   Ouvi minha tia sussurar palavras, e perguntei o que era, ela disse :
 "estou pedindo a Deus para que cuide dela, para que a liberte " mas uma lágrima desceu por seus olhos e ela repetiu "Ele ira a libertar" . Ela me deu um beijo na testa e saiu com a cabeça erguida e enxugando as lágrimas de seu rosto ! Eu não conseguia entender de onde vinha tanta garra, eu não tinha nem mesmo vontade de respirar ,  me sentei recolhida em um canto, abraçando meus joelhos, e fiquei ali parada em um canto frio do banheiro, sem fé, sem forças, sem ESPERANÇAS !

14 de maio de 2010

Pequeno anjo,

Sou apenas uma criança, e talvez por isso eu não tenha o direito de estar aqui, dizendo que enfrento problemas e dores. Era para ser mais fácil para nós pequenos seres, pois nossos problemas geralmente machucam mais, mas são mais simples , bem pelo menos na teoria.
Sinto que já amei mais, que já sofri mais, que já vivi mais que muitas pessoas que viveram por vários anos, talvez por ter de cuidar da minha pequena Ellie, minha irmãzinha, sou 1 ano mais velho ela tem 8 eu tenho 9 anos, depois do acidente em que nossos pais morreram - ano passado -, Ellie ficou muito frágil, não comia, não sorria, arrisco-me a dizer que ela não vivia mais, eu vi minha irmãzinha se destruir aos poucos, e não pude fazer nada, estava impotente. O câncer tomou conta dela de uma forma brutal, ela não tinha defesas, estava vulnerável, e fraca, ela não queria lutar, tinha simplesmente aceitado, eu sentia que ela desejava a morte.
Com o tempo, e os tratamentos, o cabelo dela começou a cair, sua pele ficou frágil, ela estava ainda mais vulnerável que antes, um dia fui visitá-la , foi quando ela se escondeu, porque estava sem cabelo, e eu disse que não a amo somente fisicamente e sim espiritualmente, pois não amamos um corpo e sim uma alma. Eu era sua única família, e ela a minha, eu a amava mais que a minha própria vida.

- Eu preciso que seja forte Ellie, como sempre foi.- disse eu, enxugando as lágrimas quentes que brotavam de meus olhos assustados

- Eliot, eu perdi todo o meu cabelo - ela soluçava - não pode mais fazer tranças em mim, nem puxar meu cabelo em uma briga, eu estou tão feia. -Nem eu, nem ela conseguíamos controlar o choro impulsivo que brotava de nós.

- Eu estou aqui irmãzinha, e quem disse que está feia ? você esta só .. - lembrei-me de algo que a mamãe dizia . - diferente

- Acha mesmo que estou diferente ? - ela disse enxugando as lágrimas

- Sim, esta bem diferente, está lindamente diferente, sabe, eu queria ser diferente assim. - Ela sorriu

- Acha que a mamãe tem orgulho de mim ? Ela dizia que tínhamos que ser diferentes, por que quando somos iguais nos apagamos, lembra-se ?

- Lembro sim, e acho que ela esta cheia de orgulho, lá no céu, e eu, eu estou cheio de orgulho aqui.

E pela primeira vez desde o acidente dos nossos pais no dia 25 de março de 2010, eu vi um sorriso puro no rosto da minha pequena Ellie, enquanto ela corria para os meus pequenos braços e dizia:


- Obrigada por se orgulhar de mim, eu te amo irmãozinho